Miguel Artín Caetano Jorge Albert Mallebrera

Artículo redactado y revisado por Jorge, Miguel y Caetano

Se chegou até aqui, provavelmente já passou pela pior parte do caminho: anos a ouvir que era uma questão de dieta, de força de vontade, de se mexer mais. E nenhuma dessas coisas explicava por que razão a parte de cima emagreceria e as pernas continuariam iguais, nem por que lhe doíam ao mínimo roçar.

Vamos ao que interessa. O lipedema não tem cura, mas pode ser tratado, e é tratado bastante melhor do que muitas pessoas pensam. O que é necessário é compreender o que cada ferramenta consegue fazer: o que atua sobre a dor, o que atua sobre o volume, o que atua sobre a progressão e o que não faz absolutamente nada, por muito que seja vendido como solução. Essa é a conversa honesta que quase ninguém tem consigo em dez minutos de consulta.

Tratamento Sobre o que atua Quando é considerada
Compressão Dor, sensação de peso, progressão Desde o primeiro dia, em todos os estádios
Drenagem linfática Componente líquido e tensão dos tecidos Todos os estádios, sobretudo com edema
Pressoterapia Drenagem contínua em casa Como continuidade entre sessões
Exercício Bomba muscular, mobilidade, dor Sempre, adaptada ao estádio
Alimentação anti-inflamatória Inflamação e comorbilidades Sempre, sem a expectativa de esvaziar a perna
Cirurgia (lipoaspiração específica) Tecido adiposo patológico Quando o tratamento conservador não chega

Organize o seu plano de tratamento

Orientativo. O seu plano real é definido pela sua equipa de saúde.

O que pode ser tratado e o que não pode

Esta distinção poupa imensa frustração, por isso vem primeiro.

Numa perna com lipedema coexistem três coisas distintas. Há o tecido adiposo patológico, que não responde ao défice calórico e que provoca a desproporção característica. Há o componente líquido, que surge porque esse tecido comprime e dificulta a drenagem, sendo responsável por grande parte da sensação de peso ao fim do dia. E há a inflamação e a dor, que são aquilo que realmente condiciona o seu dia a dia.

Os tratamentos conservadores atuam muito bem sobre o segundo e o terceiro: reduzem líquidos, aliviam a dor, travam a progressão e melhoram a forma como se movimenta. Sobre o primeiro, atuam muito pouco. Esse tecido adiposo, quando já está estabelecido, só pode ser removido cirurgicamente.

Traduzido em expectativas: com um bom plano conservador, pode esperar menos dor, menos sensação de peso, pernas menos tensas, melhor mobilidade e travar a progressão. O que não vai conseguir é que a perna mude de forma. Quem lhe prometer isso sem cirurgia está a vender-lhe algo.

Se ainda está na fase de perceber o que se passa consigo, comece por o que é o lipedema, sintomas e causas e por a diferença entre lipedema e celulite.

O tratamento conservador, peça a peça

Chama-se «conservador» porque não envolve uma ida ao bloco operatório, não por ser de segunda categoria. É a base em que assenta tudo o resto, incluindo a cirurgia.

Compressão: o pilar que menos se cumpre

A peça de compressão é o tratamento com mais evidência e, ao mesmo tempo, aquele que mais pessoas abandonam. E abandonam-na por motivos legítimos: aperta, aquece, é difícil de vestir e, esteticamente, não entusiasma ninguém.

O que faz é sustentar os tecidos a partir do exterior, limitar a acumulação de líquidos e reduzir a dor pelo simples facto de o tecido inflamado se mover menos. No lipedema, utiliza-se geralmente compressão plana, diferente da meia de compressão circular que se compra na farmácia para as varizes: sustenta melhor um tecido irregular e não deixa sulcos.

Conselho prático que faz a diferença na adesão: peça para a ajustarem à medida, tenha pelo menos dois conjuntos para poder lavá-los e vista-a logo ao levantar-se, antes de a perna ficar inchada.

Drenagem linfática manual

Um fisioterapeuta com formação específica trabalha de forma muito superficial e muito lenta, na direção dos coletores linfáticos. Não é uma massagem forte: se apertarem, não é drenagem. Reduz a componente líquida, diminui a tensão dos tecidos e costuma aliviar a dor durante vários dias.

O seu ponto fraco é a frequência: uma sessão semanal ajuda, mas o efeito dilui-se. Por isso, combina-se com compressão e drenagem em casa.

Pressoterapia: a continuidade entre sessões

É aqui que entra a compressão pneumática. Não substitui a drenagem manual —não tem a mesma precisão—, mas permite manter o trabalho vários dias por semana em vez de apenas um, que é precisamente o que o lipedema exige.

Com uma condição importante: no lipedema, tratar apenas a perna não é suficiente. Os tecidos afetados costumam estender-se à anca e aos glúteos e, se essa zona ficar de fora do equipamento, estás a deslocar o líquido para uma área que continua congestionada. Explicamos tudo em detalhe em lipedema e pressoterapia: por que é necessário tratar as ancas e os glúteos.

Pressão baixa ou moderada, sessões de 20 a 30 minutos, 3 a 5 dias por semana. No lipedema, a pressão elevada não traz benefícios e, além disso, provoca dor, porque os tecidos já estão sensíveis.

Exercício: aquele que consegues manter

O objetivo não é queimar gordura —já sabemos que esse tecido não responde—, mas sim ativar a bomba muscular, manter a mobilidade e reduzir a inflamação geral.

O que a maioria tolera melhor:

  • Atividade aquática. A água exerce compressão natural e alivia o peso sobre as articulações. É a atividade mais bem tolerada no lipedema.
  • Caminhar, mesmo que seja em percursos curtos distribuídos ao longo do dia.
  • Bicicleta estática com resistência baixa.
  • Treino de força suave, dois dias por semana. Manter a massa muscular é muito importante, tanto para o metabolismo como para a estabilidade articular.

O que costuma fazer mal: impacto repetido, sessões muito longas e tudo o que deixe a perna dorida no dia seguinte.

Alimentação: o que esperar realisticamente

Aqui é preciso ser especialmente honestos. Nenhuma dieta esvazia uma perna com lipedema. O que um padrão alimentar anti-inflamatório pode fazer é reduzir a inflamação de base, controlar o peso —o excesso de peso adicional agrava o quadro e responde, sim, à dieta— e melhorar a forma como te sentes.

As recomendações que mais se repetem nas consultas especializadas são: reduzir os alimentos ultraprocessados e os açúcares, moderar o sal devido à retenção de líquidos, dar prioridade a proteínas suficientes e gorduras de boa qualidade e beber água sem receio. A retenção de líquidos não se resolve bebendo menos; muito pelo contrário.

Cuidados da pele e gestão da dor

A pele com lipedema tende a ser seca e a ficar facilmente com nódoas negras. Hidratá-la diariamente não é uma questão cosmética: reduz a comichão e previne fissuras por onde pode entrar uma infeção, o que, numa perna com drenagem comprometida, é um problema sério.

Para a dor, o que costuma resultar melhor no dia a dia é a combinação de compressão, frio local e elevação. O frio local acalma a sensibilidade dos tecidos e proporciona um alívio imediato depois de um dia longo.

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Cirurgia: quando é considerada

A lipoaspiração para o lipedema não é uma lipoaspiração estética. É realizada com técnicas concebidas para respeitar os vasos linfáticos — tumescente, assistida por água ou por vibração — e o objetivo não é adelgaçar a silhueta, mas remover o tecido adiposo patológico que está a causar dor e a limitar a mobilidade.

É considerada quando um tratamento conservador bem realizado e mantido durante meses não consegue controlar a dor, ou quando a desproporção já limita o dia a dia. A palavra-chave é «bem realizado»: não faz sentido operar antes de se ter tentado seriamente a compressão, a drenagem e o exercício.

O que a cirurgia faz O que não faz
Remove tecido adiposo patológico Curar o lipedema
Reduz a dor e a sensibilidade Eliminar a necessidade de compressão
Melhora a mobilidade e a proporção Substituir o tratamento conservador
Geralmente requer várias sessões Resolver-se numa única intervenção

Depois de uma operação, é necessário continuar com a compressão e a drenagem. Quem vai para a sala de operações à espera de deixar tudo o resto, sai desiludido.

O que não funciona (e é muito vendido)

As dietas muito restritivas. Emagrece-se na parte superior do corpo, a desproporção acentua-se e, além disso, perde-se músculo. É contraproducente.

As massagens agressivas e as «drenagens» que deixam nódoas negras. Num tecido que já fica com nódoas negras espontaneamente, apertar com força causa danos sem drenar mais.

Os cremes redutores que prometem eliminar o lipedema. Um creme pode hidratar e proporcionar uma sensação de alívio, o que é bem-vindo. Não atravessa a pele para dissolver tecido adiposo.

Os diuréticos por iniciativa própria. Sem indicação médica, não são recomendados no lipedema: desidratam e podem concentrar ainda mais as proteínas dos tecidos.

Os aparelhos de «cavitação» e semelhantes. Não há evidência que os sustente no lipedema.

Filtro rápido: qualquer tratamento que prometa «eliminar o lipedema» sem cirurgia e sem mencionar a compressão merece desconfiança. Os profissionais que conhecem a doença são os primeiros a dizer-te o que o seu tratamento não faz.

O que deve ser prioritário em cada estádio

Estádio Prioridade Objetivo realista
1 Compressão diária, exercício, controlo do peso Travar a progressão e controlar a dor
2 Acrescentar drenagem regular e pressoterapia em casa Reduzir o líquido e manter a mobilidade
3 Tudo o que foi referido anteriormente, mais avaliação cirúrgica Recuperar a função e aliviar a carga
Com linfedema associado Terapia descongestiva completa, prescrita por um fisioterapeuta especializado Controlo do edema

Se ainda não sabe em que ponto está, encontra os sinais iniciais em lipedema de grau 1: como identificá-lo.

Como saber se o seu plano está a resultar

No lipedema, esperar para se «ver» diferente leva ao abandono, porque as mudanças de forma são lentas ou simplesmente não acontecem sem cirurgia. Meça outras coisas:

  1. Dor. Classifique de 0 a 10 no final do dia, uma vez por semana. É o indicador que responde mais rapidamente.
  2. Perímetros. Tornozelo, gémeo e coxa, sempre à mesma altura e à mesma hora. Registe a evolução mensal.
  3. Nódoas negras. Quantas lhe aparecem por mês sem se lembrar de ter batido.
  4. Função. Quanto consegue caminhar sem que a perna o impeça.

Um plano que reduz a dor e melhora a função está a resultar, mesmo que o espelho mostre o mesmo.

Perguntas frequentes

Não. É uma doença crónica do tecido adiposo. O que se consegue com um bom tratamento é controlar a dor, reduzir a componente líquida, travar a progressão e, se houver cirurgia, remover parte do tecido afetado. É possível viver bem com o lipedema tratado; o problema é o lipedema ignorado.

Melhorar o eventual excesso de peso adicional já alivia a carga, as articulações e a inflamação. Mas a gordura própria do lipedema responde muito pouco ao défice calórico, pelo que a desproporção costuma manter-se e até tornar-se mais visível. Perder peso ajuda, mas não resolve.

No lipedema, o padrão habitual é de 3 a 5 sessões semanais de 20-30 minutos, com pressão baixa ou moderada. É um tratamento de manutenção, não um ciclo com fim: o benefício mantém-se enquanto se mantiver a rotina.

Sim, começando pelo nível mais baixo e com sessões curtas de 10-15 minutos. Muitas pessoas com lipedema toleram bem a compressão sequencial, mesmo não suportando que lhes toquem na perna, porque a pressão é envolvente e homogénea. Se doer mesmo no mínimo, fale com o seu fisioterapeuta antes de continuar.

A recomendação habitual é colocá-la ao levantar-se e tirá-la para dormir. Colocá-la já com a perna inchada à tarde funciona bastante pior. No verão é mais difícil, e aí ajuda ter tecidos mais respiráveis e alternar conjuntos.

Depende do sistema de saúde de cada zona, mas o mais habitual é recorrer à angiologia e cirurgia vascular, medicina interna ou unidades de linfedema. O fisioterapeuta especializado em drenagem é uma peça fundamental do acompanhamento. Se te disserem que «é apenas excesso de peso» sem te observarem, procura uma segunda opinião.

Varia consoante a comunidade autónoma e o critério de cada unidade e, na prática, muitas doentes acabam por recorrer ao setor privado. É uma das reivindicações históricas das associações de doentes. Informa-te junto da associação da tua zona: costumam ter o mapa atualizado.

São os períodos em que é mais provável que se manifeste ou se agrave, porque tem uma componente hormonal evidente. De facto, muitas mulheres identificam o início na puberdade, durante uma gravidez ou na menopausa. Nestas fases, convém reforçar o tratamento em vez de o descurar.

Para o lipedema enquanto doença, não. Para a pele, sim, proporcionam hidratação, sensação de alívio e o próprio gesto da automassagem ao aplicá-las. Usa-as pelos benefícios que proporcionam, não pelo que prometem.

Sim, e chama-se lipolinfedema. Ocorre quando o lipedema avançado acaba por comprometer o sistema linfático. O tratamento muda: é necessária a terapia descongestiva completa, com ligaduras e orientações específicas, sendo indispensável a intervenção de um fisioterapeuta especializado.

O que convém levar

O tratamento do lipedema não é um produto, é um conjunto de hábitos mantidos: compressão diária, drenagem regular, movimento adaptado, alimentação anti-inflamatória e cuidados da pele. A cirurgia é considerada quando tudo isso já está em curso e, ainda assim, não é suficiente.

Avalia a dor e a função em vez de te olhares ao espelho, porque o espelho é o pior indicador desta doença. E não confies em ninguém que prometa fazê-la desaparecer sem cirurgia.

Encontra mais contexto sobre o que é o lipedema e sobre o que é a drenagem linfática. E, se alguma coisa te fez sentido e ainda não tens diagnóstico, esse é o primeiro passo, antes de qualquer compra.

Drenagem que chega até à anca e aos glúteos

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